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  • Rodrigo Souza

O Coveiro


Dizem que é preciso trabalhar com alegria

Faço o que faço por necessidade,

mas confesso que me orgulho de fazer com maestria.


Precisas ver, rapaz

Sete palmos é coisa de poesia

Cavo quatorze em dia de chuva

Em dias de sol sou escavador

Até petróleo encontraria.


Dizem - trabalhe com o que ama e não precisará

trabalhar mais nenhum dia

Trabalho com o que não gosto

em dias que para outros é desgosto

Como posso amar o meu ofício

Se cavo covas para um corpo

Que sem vida desce ao fosso

Que fiz sorrindo, mas escondendo um sorriso de decoro

Não posso sorrir enquanto chora a viúva desse morto.


O que dirá olhar as pernas das outras viúvas do mesmo moço

Meu ambiente de trabalho tem tudo o que tens no teu

Mas rapaz, fico abismado

Quanto amor por um filisteu!?!


Olho pelo vidro do caixão a cara do condenado

Foi meu parceiro de boteco

Já bebemos lado a lado

Amava as putas da Lobo D’almada

Hoje sua partida certamente lá será brindada

Que chegue aos céus dos raparigueiros

Esse jovem camarada!


Seu nome só sei por que todas suas viúvas o chamavam

Os filhos assumidos choram também

Bem ao lado dos que nem memória dele tem

Nem fingir dor assim nenhum fez

Por que o importante é ter faltado aula

Bem no dia da prova de português


O que me dá alegria – não só hoje, qualquer dia

É trabalhar com meus parceiros

Não podemos gargalhar o dia inteiro

Mas aprendemos a fazer piadas que só é capaz

De entender o outro olhar de um coveiro


Bom mesmo é o sindicato

Lá falamos sem parar

Nossa classe de tanto contato com a morte

Não se dedica muito a reclamar


Mas o que importa é a consciência de classe

No dia que houver revolução já sabemos em que postos nos convocará a comissão

Enterraremos os patrões, aí sim

Trabalharei sem nem sentir remorso algum por me permitir

Gargalhar da morte sem culpa

Só tenho pena dos vermes que desse couro imundo vão se nutrir

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