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  • Rodrigo Souza

O Carlos e o Andrade: a dificuldade de se reconhecer no outro





“Na rua passa um operário. Para onde vai o operário? Teria vergonha de chamá-lo meu irmão. Ele sabe que não é, nunca foi meu irmão, que não nos entenderemos nunca. E me despreza… Ou talvez seja eu próprio que me despreza a seus olhos. Sim, quem sabe se um dia o compreenderei?”


Esse é um fragmento da prosa Operário do Mar, de Carlos Drummond de Andrade. O poeta brasileiro que hoje é uma pedra sentada num banco de praia. Figura nas fotos de instagrams e facebooks sem ao menos representar, muitas vezes, qualquer coisa pra quem posa ao seu lado. Parece que nada mais sabemos do outro. Mesmo que esse outro seja Carlos Drummond de Andrade. Um mineiro de Itabira sentado de costas para o mar de: Copacabana, no Rio. Uma das mais conhecidas homenagens é essa. Ele sentando. Ele solitário. De perninhas cruzadas. Uns oclinhos que sem querer querendo retornaram à moda do momento. Inclusive a armação já foi furtada. A carequinha de Drummond já foi pichada. A mão do poeta já foi roubada. Mas essa foi outra estátua dele, não lembro mais de onde.

O que se sabe do outro, hoje, é o que ele mesmo apresenta nas janelas das redes sociais. Muito mais agora, durante a pandemia. Que as interações chegaram a ser canceladas. Hoje quem cancela é quem interage, mas esse não é o objeto do meu texto. Eu estou aqui para falar desse Andrade que olha o operário e se questiona sobre ele, sobre sua condição, sobre sua vida e a possibilidade dele ser um irmão. Irmão de quê? Irmão de sangue não será, pois Andrade provavelmente o operário não é. Os Andrade eram uma família de posses, cheia de recursos, proprietária, patriarcal, que conflitava com o anseio revolucionário em criação de um Drummond fruto do século XX, pois nascido 1902. Um Carlos Drummond de Andrade filiado ao Partido Comunista Brasileiro. Sim, comunista. É certo que, como Silviano Santiago, muito poeticamente relata na edição 177 da revista Suplemento Pernambuco, um Carlos Drummond que queria se afastar do Andrade. Se identificando e se estranhando no tempo e na poesia. Cresceu de mãos dadas com o século e com ele, sofreu dilemas muito profundos, quase de vida e quase de morte. Quase que quis matar sua fidalguia pela coerência entre política e poesia. Mas onde quero chegar, dizendo tudo isso? Quero chegar no olhar de Drummond. E no olhar do Andrade. Há diferença? Talvez.

Drummond, olhava ao redor, como bom poeta, para perceber o imperceptível, mas também para notar o elementar. O elementar estampado em letras garrafais. Ao ver o operário, Carlos Drummond era ombreado pelo Andrade. A família Andrade tudo tinha, nada faltava. Tudo era tradição. O oposto do operário que vai no caminho do mar. Com sua roupa de tecido grosso. Com sua pele reluzente do sol, vai o operário, que o Drummond se afeiçoa e o Andrade teme. Teme e estranha.

É ainda hoje, para muitos, complexo chamar o operário de irmão. Ainda hoje é, para muitos, dificílimo se ver como um igual ao operário. Talvez pelos vários andares do edifício social, como ilustrado no filme espanhol de David Desola e Pedro Rivero - O Poço, que nos distanciam e diferem. Um poço e ao mesmo tempo um edifício. Quem está em níveis mais dignos de vida não se reconhece naqueles que em níveis mais abaixo possam estar. O operário e eu somos entes opostos? Por que haveríamos de ser? Será por ser meu trabalho abrigado do sol? Se trabalho com uma pena na mão ou se num andaime, isso muito nos difere e posso dar como definido que o dependurado nas alturas da construção seja um não-irmão? Carlos Drummond de Andrade olha o operário com suas duas lentes oculares, mas há outras lentes que no processo de descobrimento de si mesmo foram caindo, depois recolhidas e recolocadas, ou foram sendo substituídas, ou ainda, para sempre removidas.

E eis aqui onde quero chegar. Cabe a observação de si mesmo e o questionar de si mesmo. Se com neologia andradeamos ao ver o operário indo, nem que seja ao bar para aproveitar o seu domingo. Se enquanto estou na digitação do meu texto jornalístico, do meu parecer, do controle dos materiais, das ações de marketing, na obturação que faço, na defesa que empreendo, será se sou irmão do operário que solda, que parafusa, que encaixa, que pinta, que monta, que transporta de janeiro a janeiro. Será se sou superior ao operariado bronzeado por estar pálido no meu home office carcerário? Ou se será se somos iguais. Se podemos seguir como irmãos. Se classe trabalhadora é só aquele que passa na rua, distante, e que me despreza. Ou desprezo eu, ele. Por não me achar classe, ou me achar uma outra, embora seja trabalhador, embora assalariado. Embora não reconheça quem seja esse distinto senhor nesta praia sentado ao meu lado.


Que o novo modernismo seja do operariado.


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