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  • Rodrigo Souza

O Atentado ao Presidente (Parte 5)



Ao anoitecer, Rogério Rayol aguarda o atendimento de uma chamada que se prolonga, se repete, e insiste em não ser atendida. Uma última tentativa.

- Oi

- Delfino?

- Pode falar, estou sozinha.

- Preciso encontrar você o quanto antes

- Amanhã na casa do Rocha

- 9h

- Certo

Fernanda Delfino. A dona de uma rede de lojas. Conhecida como uma das mais vorazes negociadoras do comércio de varejo do país. Corre à boca pequena que usa de métodos não muito limpos para conseguir o que deseja. Assim que desliga o telefone, chama seu sócio até sua sala. Ele, Marcelo Vittoriano, cúmplice de segredos imperdoáveis recebe o aviso da reunião do dia seguinte. Delfino o alerta sobre o tenso pedido de Rayol. Reunir sempre é motivo de tensão. Quando se pede algo do gênero, é por ocasião muito grave. E todos que constavam na lista de Grécia, entregue à médica Sofia, já sabiam de sua morte. Marcus Grécia era alguém que sabia muito de todos eles.

Em seu apartamento, Sofia ainda olha o bilhete deixado em suas mãos naquela manhã. Ela vê as imagens do telejornal, mas pouco depreende, pouco se interessa até aparecer imagens do local onde ocorreram os disparos que testemunhara. O âncora, com a imagem do rapaz alvejado ao fundo, discorre sobre os trabalhos dele, prêmios, reportagens memoráveis. Marcus Brandt. Ela enfim fica sabendo quem era aquele homem. O homem que havia causado tanto impacto num olhar de dois segundos. Ao fechar os olhos ela ainda sentia aquele olhar. Um olhar cheio de medo da morte, intenso de alerta. Um barulho incomum na cozinha tira a atenção de Sofia que agora fitava a televisão com curiosidade. Ela decide ignorar o som vindo da cozinha. A reportagem acaba sem mais dizer nada muito conclusivo. Sofia decide ir até a cozinha com lenta cautela, passo a passo. Mais um som. Dessa vez mais alto, enche de nervosismo o ambiente. O clima pesa como chumbo. Ela lança um olhar curto para o ambiente na penumbra. Não foi possível ver nada. Ela arrisca olhar com mais entrada, avançando para o cômodo. Alguém dispara um tiro em sua direção. POW.

O susto acorda a médica. Ela havia adormecido e uma noite de pesadelos se anunciava.

Na manhã seguinte, como o combinado entre todos, às 9h, na casa de Tadeu Rocha, todos chegam com uma precisão britânica. O tempo é precioso para cada um deles.

Rayol adentra a sala principal já falando o assunto da sua angústia.

- Mataram o Grécia, porra! E com ele estava todas as fotografias, rascunhos...

Delfino com seu ar de viúva negra, diz num tom muito baixo, próximo ao rosto de Rayol: E eu avisei que isso iria acontecer. Grécia há muito tempo não era o mesmo. E pelo visto você também. Perdeste a capacidade de ouvir.

- Só nos resta agora apagar todo o resquício de prova que nos comprometa – diz Vittoriano.

- E quem vai fazer isso? Quem?! – Tadeu grita.

O silêncio toma o lugar. Uma componente daquele grupo que até então estava emudecida, como de costume, fala como poucas vezes fez em reuniões:

- Precisamos de alguém fora de nosso círculo que faça o resgate de tudo isso sem saber do que está fazendo.

Natália Souza recebe todos os olhares daquela sala.

E quem fará isso?! Não seja ridícula. Rayol com todo desdém.

Você sabe bem, diz Natália. E ela já começou a fazer.

Todos olham para o médico. Fernanda Delfino diz com o seu melhor sarcasmo: Chegou a hora do orgulho papai. E ri, perversamente. O olhar trêmulo de Rogério Rayol entrega seu entendimento. Ele sabe muito bem de quem estão falando.


E sabe que não estão errados.

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