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  • Rodrigo Souza

O Atentado ao Presidente (Parte 4)



No outro lado da cidade um telefone toca sem parar. Chamadas seguidas. Ininterruptas. A casa vazia faz ecoar o som do aparelho. Alguém está destrancando a porta. Ao perceber que o telefone toca faz seus gestos mais rápidos. Deixa a porta escancarada e apressa o passo para chegar a tempo de atender a chamada.

- Alô!

- Pai. Onde o senhor estava?

- ...calma... eu só fui tomar um café aqui perto. Está tudo bem, minha filha? O que houve?

- Pai... eu preciso saber onde o senhor estava. Onde o senhor estava exatamente?!

- haha... minha filha. Você parece tão nervosa.

- Eu estou indo aí com você

Todos viviam um clima muito especial em decorrência das festividades do aniversário da cidade. O presidente, que estava pronto a se pronunciar no palanque da praça central, teve que cancelar o momento por conta do risco que corria. Foram várias ocorrências nas proximidades da praça central. A mais grave foi a que resultou em dois mortos. Estava tudo muito estranho. Por volta do meio-dia, o jornalista Yuri Medeiros recebe uma ligação urgente da Editora-chefe do Jornal O Guardião. Havia algo muito importante na morte desta manhã.

Ao chegar à redação, o jornalista sente que o lugar está mais barulhento que o normal. Olhares direcionados a ele o atravessam como flechas. Abre a porta da sala de reuniões. Yuri recebe em tom muito solene a missão de elaborar uma reportagem investigativa. O homem alvejado pela polícia logo depois de acertar um oficial com seu revólver calibre 38, se tratava de um antigo conhecido do jornal. O fotógrafo Marcus Grécia. Para entendermos a gravidade do momento, precisamos recuar 6 anos na história e percebermos o quanto Grécia vale uma reportagem investigativa e Yuri sabia muito bem disso, e o valor que a manchete teria. O valor não financeiro, mas de reparação.

Marcus Antônio Grécia. Fotógrafo respeitadíssimo em todo país. Sempre nos lugares certos, nas horas exatas, no momento flagrante. Marcus sempre foi premiado por suas fotografias de timming invejável. Ficou conhecido como O Click Perfeito entre as redações dos jornais de todo país. Com tanta fama e tanto prestígio, se tornou um profissional que trabalhava por conta própria. Não precisava de vínculos com nenhum jornal. Fazia seu trabalho solo. Negociava suas fotos e estabelecia altos preços que eram pagos sem demora. Até que uma denúncia feita a Yuri colocou em xeque o faro de Marcus. A denúncia havia sido feita via telefone. Sem identificação. Com uma voz abafada e sem muitos detalhes. Dizia o informante que Grécia era membro de uma organização criminosa que exterminava desafetos e ganhava publicidade e dinheiro, num tacada só, com o “Click Perfeito”. Yuri compartilhou a denúncia com seus superiores no jornal. A história parecia mirabolante e a falta de mais informações fez com que a coisa toda fosse tratada como pura inveja. Yuri, que também fazia fotos, acabou marcado como um concorrente frustrado de Marcus Grécia que tentou derrubá-lo com acusações infundadas. Não aceito, diz Yuri. A mágoa foi a responsável pela resposta. A mágoa venceu o ofício. Mas algo dizia a editora-chefe que aquela não seria uma resposta definitiva.

- Pai!

- Filha. O que aconteceu? Por que essa urgência? Sente. Você quer alguma coisa? Um café?

- Pai. Onde o senhor estava hoje pela manhã?

- Eu já falei pra você - responde risonho.

Ela começa pensar que aquilo tudo era uma grande coincidência. Se acha ridícula por desconfiar de seu próprio pai. Eles se abraçam. Às vezes eu me culpo por ter deixado você fazer medicina, minha filha. Ao que Sofia responde:

- Eu vivo pra te imitar, Dr. Rogério Rayol. Os dois sorriem sorrisos de cumplicidade. O laço entre os dois é tão firme que as ideias na cabeça confusa de Sofia se dissipam no abraço.

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