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  • Rodrigo Souza

Na cama dos inseguros


Não consigo dormir. Tem sido muito difícil dormir sem tomar algum remédio. Eu nunca fui muito bom de dormir. Nunca foi algo fluido. Invejo quem consegue deitar e dormir em minutos.


Hoje tem a coisa do estímulo. A luz branca do celular deixa o cérebro achando que está em plena manhã de quarta-feira chegando perto do almoço.

Esse vírus mexe com a gente mesmo sem tocar a tua imunidade, né? Ele longe do teu organismo consegue te atingir. É um vírus, com o perdão da expressão que não cabe num lugar textual de tanta elegância como este, filho da puta.


Fiquei pensando o motivo, para além do óbvio da doença perigosa, que faz esse vírus provocar esse efeito em quem nem foi afetado por ele diretamente. Tudo tem muito a ver com o medo e a insegurança que ele impõe. Conversava hoje com uns amigos (via aplicativo de mensagens) sobre o medo ser a raiz de muitos problemas. E o medo me parece ser a raiz da minha insônia. Medo de pegar o vírus e morrer. Medo de alguém que amo ser infectado. Medo de alguém próximo morrer. Medo do desemprego. Medos. Vários.


Que insegurança. É muita insegurança. Logo nós, tão seguros. Tão certos de que tudo estava sob controle.


Logo nós que sabíamos o que iria acontecer amanhã no trabalho, e depois do trabalho quem eu encontraria e o quanto seria legal. Logo nós que tínhamos hora pra sair e chegar, sempre seguros. Não havia ameaça contra as nossas vidas o tempo todo. Não havia um vetor invisível rondando a nossa vida segura. Logo a gente!?


A vida estava tão segura, amigos. E chegou esse vírus. E tirou toda nossa segurança. Logo nós que sabíamos que no dia seguinte, cheios de vida, levantaríamos da cama e viveríamos a segurança diária, certa e firme de uma sociedade sob controle, equilibrada, protegida das ameaças mortais, da ação violenta, dos apuros hodiernos e de cronogramas tão bem ajustados.


Logo nós, amigos. Que estávamos tão seguros.


Estávamos?

Era sonho?

Não fale em sonho para quem não dorme.


O que mudou se sempre fomos ameaçados todos os dias?

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