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  • Foto do escritorRodrigo Souza

Lembrança





Nos disseram que a vida seria buscar por meio dos estudos a estabilidade do trabalho e que, numa faixa etária tal, nos sentiríamos prontos para contrair o potente e certo, claro, como a transparência límpida, o amor. Daí, casaríamos e teríamos filhos. E como você, estando estável na labuta, pudesse transferir como que por mágica, e isso representasse alguma coisa além de uma ilusão chamada de “maturidade”, que nos vem como um novo nome para a mística “sabedoria”, tão quista por Salomão. Nos enganaram. Sem motivo algum aparente, nos disseram que a vida carrega consigo alguma certeza. 

Me impressiona a nossa petulância. Como se pode crer que é possível dizer, em qualquer momento da vida, que estamos preparados para qualquer coisa. Me diga. Me diga você. Você teria a petulância de dizer: Estou certo de que minha maturidade, minha sabedoria de hoje, me garante isso e isso. Não minta. Não há quem diga. Não há quem diga, seguro e firme, por exemplo: Meu amor pela vida é perene.

Primeiro, porque muito raramente sabemos definição alguma sobre o amor sem não pensarmos, antes, naquilo que ele não é. Aprendemos sobre amor entendendo o que ele não é. Ou, mais diretamente e melhor dizendo, vamos inventando o que ele possa ser, segundo aquilo que acho que ele não seja.

Meu ponto soa confuso, eu sei. Eu nunca sei dizer exatamente o que quero. Quem consegue? Quem é capaz?

Segundo. A pergunta que todo bêbado acaba se fazendo em alguma de suas noites de entorpecimento: e o que é a vida?

Não sabemos nada. Não entendemos nada sobre amor e estabilidade. 

Ninguém pode dizer também que compreendemos muito bem a história ideal para um cristão fiel. Como se dá a formação da vida feliz segundo a Bíblia. Não entendemos nem o básico, que seria não matar o próximo e coisas bem do antigo testamento. Vez ou outra me pego desejando a morte minha e de outros. Quem nunca? Enfim. 

Até hoje, me parece, humildemente falando, que não entendemos nada de nada. Simplesmente a gente não sabe viver. A gente só vai vivendo. Até o dia que acaba. 

Eu não gostaria de admitir isso. Juro pra você. Eu não gostaria de admitir que sempre que pensei numa vida após a morte, pelo menos uma parecida com essa, era uma crença assustadora pra mim. Desde sempre guardei o medo de falar em voz alta que quando ensinavam que de eternidade em eternidade cantaríamos louvores ao Senhor, me batia um leve desespero. Que tedioso, eu pensava. Eu respeito quem gosta da ideia. A mim, não me parece lá muita vantagem me privar do bom pecado para ficar cantando. Poxa, amo a ideia de um Deus (veja, não escrevo com d minúsculo, eu não estou afrontando), mas é que não gostaria mesmo, sabe? Eu acho que até pensaria bem se caso houvesse algumas opções, né!? Mas aí a gente ia ter que estabelecer uma espécie de democracia no céu. Pra que uns não tivessem um céu melhor que o outro e isso despertasse uma disputa e PERA. Não sei se você pensou o que eu pensei. Mas sim… acho que é por aí, sabia? Isso que a gente vive já pode ser o céu e o inferno que optamos. Sei lá. 


Engraçado. Por alguns instantes escrevendo isso parecia que eu tava conversando contigo, que me lê. Essa seria uma conversa que teríamos tido. Se tudo tivesse sido. Se algo tivesse dado certo. De algum jeito deu tudo errado. E o errado foi o melhor de acontecer. Por que no fim das contas uns nascem realmente para figurarem entre os não-acontecimentos da vida. Há quem exista com o fim de ser nada além de uma boa lembrança. 


Nunca sabemos nada. A experiência é essa. A de não termos certeza alguma até o dia de acabar. E isso é bonito. O resto é lembrança de quem fica.        

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