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  • Rodrigo Souza

Casa nova, Casa Velha




“Mas é que quando eu me toquei, achei tão estranho. A minha barba estava desse tamanho. Será que eu falei o que ninguém ouvia? Será que eu escutei o que ninguém dizia?

Eu não vou me adaptar.”*



Um estranho chegou e deitou no meu sofá

Um sujeito muito à vontade

De um jeito tão tranquilo

Que não sei nem como lidar


Com as pernas esticadas e o meu jornal a folhear

Coisa tão surpreendente quanto o ato de falar

Que ainda tenho jornais em casa

Na era do celular


Olhei e não pude me calar

A primeira pergunta comecei a elaborar

Ao abrir a boca

Ele fez o gesto de calar


O dedo reto sobre os lábios

Como no aviso hospitalar

- Silêncio, rapaz

Não és tu quem vais argumentar


Disse ele em seguida

Com uma voz tão similar

A que soa na minha mente

Quando me ponho a pensar


- Meu rapaz chegou a hora

Tu precisas se arrumar

Essa casa é minha agora

Chegou a hora de mudar


Sorri pra ele com a piada

Ele sério a me olhar

Perguntou se era certo

Do corpo errado se apossar


Meu rosto se fez tão sério

- Onde você quer chegar?

- Como disse, camarada

Não cabe a ti o questionar


Se eras tu tão certo de não ser

mas de sempre estar

O que ainda aqui tu queres

Se não te cabes mais ficar


Nesse instante tão confuso

E com sua voz familiar

Disse ele de onde vinha

Vinha de dentro do pensar


Retruquei com muita afronta

Que ele estava a delirar

Que saísse da minha casa

Antes que o arrancasse de lá


Riu com deboche da minha cara

Escarneceu num murmurar

Disse a ele: Fale alto!

Seja homem de aclarar!


Ele perto do meu rosto

Um sorriso a liberar

- Saia dessa casa, seu moço

Não és mais bem vindo nesse lar


Seja bem honesto consigo

Me reconheceste ao olhar

Sou você que se mudou

Estou retomando o meu lugar


Leve tudo o que quiseres

E o que for útil pra usar

Mas saia o mais breve

Pois já estais a incomodar


Meia-volta dei na hora

Juntei tudo sem teimar

Fui embora desse corpo

E não pretendo mais voltar


Àquele "eu mesmo" mais novo

Pronto pra tudo mudar

Serei grato para sempre

E não volto mais pra lá


*Nando Reis e Arnaldo Antunes

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