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  • Rodrigo Souza

O nome das cores


Não sei nome de cores.

Não sei as cores todas que existem digitalmente ou artesanalmente, sei lá. Não por daltonismo. Nem sei como deve ser não ver as cores das coisas. A peculiaridade é que eu não sei nomear direito as cores. Eu as vejo e contemplo a beleza de todas elas, mas não sei dizer o nome. Sempre sou muito primário sobre cores.

O que me lembra o verde é verde. O que me lembra o azul, pra mim, azul se chama. Mesmo que eu saiba que existe, por exemplo, o “azul bebê”. Como se um bebê da modernidade um dia tenha escolhido o azul, diferente do azulão, um azul dele. O azul-bebê.


A coisa piora com “fuxia”.

Não sei dizer nem com que cor primária ela parece. Vou precisar pesquisar no google. Um minuto…

…é rosa. Foi a primeira coisa que me veio. Mas certamente estou errado e o fuxia deve ser de uma variação da paleta do vermelho. Inclusive a palavra “paleta” sei usar, mas não sei o conceito. Mas o fato é que não sei nome das cores. A maioria delas eu não sei. Não consigo memorizar o nome das cores. É isso.


Talvez o preto seja a cor que seguramente nomeio. Uma cor absoluta. Você olha o preto, a coisa absoluta, e diz: preto!

O que não se pode dizer do branco. Às vezes o branco, tendo menos luz, é chamado de encardido. Encardido é uma cor? Tá vendo? Não sei mesmo.


Daí por diante.

O branco com menos luz ainda seria… opaco?

O preto sem a sua absoluta pigmentação seria… cinza?


O cinza é um preto quase branco? Ou seria o branco se absolutizando de pouquinho? Tornando-se um preto purinho.


Um dia desses olhando pela pequena varanda no meu antigo abrigo, olhei para dentro. Para dentro do abrigo, eu digo. Não foi uma introspecção. Mas olhei para dentro da minha provisória moradia e falei: preto!


Tudo escuro. Absolutamente absoluto.

Um cômodo inteiro de luto.

Não duvidei que aquele abrigo vivia de luto com a minha presença.

Mesmo quando se fazia dia, e eu via, a parede era: azul!

Uma bandeira vermelha vivia na sala.

E eu olhava e dizia: vermelho!


Lembrei do Djavan dizendo “eu não sei se vem de deus do céu ficar azul”.

Mais adiante fala da possibilidade do céu perder o azul. Depois fala de sol, pra rimar o amarelinho com cedinho, benzinho e o amor, que no final é azulzinho.


Aí lembro de Emicida, do AmarElo.

Ele nem fala da cor, quem fala é o pastor.

Para o pastor o amor é amarelo.


Aí me vem Caetano dizendo que a luz do mesmo sol de Djavan, a folha traduz em verde “novo”. E depois diz que a terra exala os azuis (que descem do céu até os pés).


No fim das contas acho que muita gente não sabe as cores. Ou são as cores essa coisa que quem define é quem vê.

E que para o bebê o azul é clarinho, pra o Djavan o amor é azulzinho, para o pastor o amor é amarelo, pra Caetano é verde do tipo “novo".


Quem sabe as cores?

Quem deu o nome das cores? Existe cor ou existe coisa?

A cor é coisa que se nomeia? Enfim… não sei as cores. Fiz todo esse raciocínio nada “claro" pra propor uma coisa:


Que seja o amor azul-bebê, azulzinho, amarelo ou amarelinho.

E, se verde novo, não vejo a hora de conhecer o novo

e nem a hora de conhecer e ver de novo.

Seja a cor que for…


Quanto à cor


Vou continuar sendo bem primário

Pois não sei nome de cores,

muito pelo contrário


Tampouco de cor sei os tons

Mas me diga aí você

a cor do Solimões


Me digas tu a cor dele em cada horário

Seria da cor envelhecida do teu velho relicário?

Me diz a cor dele

quando remansa no estuário

Me conte o que tu vês

Quando mergulhas o corpo tensionado

Me fale do absoluto Rio Negro

Que dependente de profundidade

Perde um tanto da certeza

de sua absoluta identidade

Me conte a cor que surge

Quando nele tu te afogas


Sei que esse assunto,

no momento,

pouco importa

Mas se tiver cor o que tu sentes

Tal como semente

Floresceria de que cor

a flor na tua nascente?

Sigo sabendo ver o que vejo

Tanto na barrenta correnteza

Quanto no negro banzeiro

Mas me diga aí você

Você que conhece as cores

Me diga a cor dos teu amores

Me diz o tom dos teus humores

Me diz a cor do ardor das tuas dores


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