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  • Foto do escritorRodrigo Souza

O espírito extremista: as certezas que matam.

“O fanático é incorruptível: se mata por uma ideia, pode igualmente morrer por ela; nos dois casos, tirano ou mártir, é um monstro.” Emil Cioran


Durante uma aula ouvi o nome de um livro chamado Breviário de Decomposição. Achei um nome belíssimo até por não saber do que se trata a palavra “Breviário”. Achei bonita. Eu não sabia o que era um breviário, mas me soou como uma coleção de pensamentos breves. Alguma coisa de uma produção reduzida sobre a decomposição. A decomposição me veio depois em complemento, como uma redução de um corpo orgânico, vivo, perdendo sua vitalidade, reduzindo-se a algo como um conjunto biológico com um tempo muito reduzido de existência visível. Breve. Morto e desfazendo-se de sua forma de então.

 

Não errei tanto, tirando o fato de que breviário se trata de um livro de liturgia com coisas para serem recitadas ou feitas pontualmente por monges e outros religiosos. Do livro de Emil Cioran não conheci o final ainda, nem o meio e já o tenho como uma das minhas leituras preferidas. É uma leitura que não oferece ansiedade pela virada de página. Vale muito ler os aforismos embutidos no corpo do texto, as sentenças, e pensar e pensar moderadamente e seriamente sobre o tal pessimismo que atribuem ao seu autor.


O romeno Cioran é tido hoje como pensador de uma filosofia pessimista e fatal. De Bucareste, nome de cidade que também me soa bem, me tomou principalmente quando lançou seu pensamento sobre a Genealogia do Fanatismo, logo nas primeiras páginas. O tema me capturou muito obviamente por considerar um momento atual do cenário mundial muito ligado ao que se entende por fanatismo, chamado também de extremismo.

 

Mais que uma adesão incondicional a uma “causa”, mais que uma carga massiva de dopamina no sistema nervoso do fanático, há que se ponderar por quais motivos alguém sobrepuja limites civilizacionais (muito embora tais limites sejam muito pouco eficazes contra o sistema de opressão instalado no mundo) em prol de uma ideia que o toma por completo.

 

O debate, ainda, pode ir até os confins da psicologia e da psicanálise, em Freud e a Psicologia das Massas. Porém, ainda que tais ambientes de debate sejam pertinentes, a intenção aqui é apontar para um outro aspecto, de certa forma ligado às temáticas acima, mas que remetem mais ao âmbito pessoal. No sujeito individual. Intento trazer rapidamente o que me remeteu a leitura de Emil Cioran sobre isso. Ele me fez pensar em questionar a certeza, que ao fim é o material do fanatismo. 


O genocídio de Israel contra a Palestina, conflito que tem nos abordado diariamente nos telejornais, a disputa territorial eivada de colonialismo, as injustiças e absurdos que se arrastam desde o século passado, me fizeram pensar sobre o que leva, no íntimo do indivíduo, aos atos violentos ao ponto de morrer/matar outras pessoas. 


Ao encarar a afirmação de que “o fanático é incorruptível”, me estremeceu a curiosidade de pensar sobre. Logo no primeiro golpe de reflexão me veio o questionamento se “incorruptível” não seria uma palavra positiva demais para vincular ao termo “fanático”. Se o fanático não seria justamente um corrupto daquela tolerância que o pretenso ganho civilizacional ofertou tão insuficientemente. No segundo golpe de reflexão me vi pensando no que faz o fanático cegar tanto, e concluí que se há algo que é pleno num espírito fanático, esse algo seria a certeza. Só tendo muita certeza, convicção, inexistência de dúvida de algo, é que se pode chegar ao limiar de matar e/ou morrer por uma determinada causa. 



O prazer da certeza tem o gozo na morte. Talvez o terrorismo seja o fenômeno que abriga as certezas mais inabaláveis, mas não menos equivocadas. A leitura de Emil me levou para esse lugar, de visualizar um ato externo e extremo e voltar para mim mesmo a fim de me fazer averiguar o que tenho com isso. O quê tenho com isso se não tenho como intervir diretamente no assunto?


O ano de 2022, para o nosso Brasil brasileiro, nos colocou na rota de um extremismo que nos parecia distante. Alguns de nossos familiares se autorizaram como senhores da vida e da morte de uma parcela da população. O lado político fanatizado rompeu em tentativa de golpe de estado, explosão na capital federal, atentados. Hoje não há constrangimento em opinar sobre se uma minoria tem direito de viver ou não, de ser ou não.


Enquanto não estivermos abertos às dúvidas, a persistência nas certezas nos levará ao extremo. Terroristas de nós mesmos, levaremos nossas certezas inabaláveis todos os dias como estandarte, esperando a aderência de mais pessoas para que não venhamos a nos sentir tão sozinhos nas nossas convicções. E certamente estaremos dispostos a matar e morrer por tais convicções. Dispostos ao fim de toda e qualquer relação que não esteja coadunada as certezas que sigo nutrindo diariamente.


Por fim, devo dizer, sem autoridade alguma, de que não se pode considerar Emil Cioran um pessimista, sem antes não levá-lo em alta conta no que diz respeito à realidade das coisas como elas são. Uma secura, talvez? Um olhar sem encantamento? Mas pessimismo? Não o vejo assim. Seria extremo assim dizê-lo. Resolvo atender ao chamamento da incerteza e sigo lendo.    


     Cioran morreu em 1995 em Paris.

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