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  • Rodrigo Souza

Me Declaro Suspeito (edificação em tempos de cólera)



“Lembremos que as discussões sobre moralidade são, em larga medida, uma discussão sobre como sujeitos devem ser para serem socialmente reconhecidos como capazes de julgar moralmente e, com isso, participar de maneira mais “plena” da vida social.”

Vladmir Safatle


Calma. Não é um artigo. Aqui falo como julgado moralmente e continua sendo crônica.

Na reta final de 2021, o ano que existiu, porém nem tanto, eu me descobri sendo pauta de mesa de bar. O que de certa forma é interessante. Até por que a mesa do bar é a congregação do profano. O que me deixa tranquilo, pois não gostaria de ser objeto de pauta de nenhum ambiente sagrado. O ambiente sagrado é o mais perigoso de todos. Mas sim... fui pauta da mesa profana do bar. Meu nome esteve entre cervejas e petiscos, olha que honra. Muito me honra.

O fato que trago é extremamente velho. E extremamente conhecido. Meu objetivo é dizer – todos somos julgados moralmente, inclusive você. Talvez, nesse instante em que você estiver lendo isso, você seja a pauta de um julgamento moral (tomara que seja numa mesa de bar). E como Vladmir disse acima, isso se fez importante para plenamente participar ou não da vida social. Tanto o julgado como o julgador. Esse papel é cambiante. Ora se é um, ora se é outro.

Há tempos que não sentia as orelhas quentes. 2021 foi o ano em que minhas grandes orelhas ficaram quentinhas. E tudo bem. É sobre isso.


Mas cabe dizer algumas coisas sobre esse fato trivial.


Não existe julgamento moral que você empreenda, que não se aplique a você mesmo. Nenhum comentário sobre o outro é inaplicável a você mesmo. Pode ser que você minta com menos frequência que fulano. O que não quer dizer que você, nas olimpíadas da moral, seja melhor pontuado que o mentiroso contumaz. Pois, se mesmo com menor intensidade a mentira ainda assim faz parte de sua vida, o comentário é aplicável a ti também.

Me aponte alguém capaz de criticar moralmente o outro sem que este julgamento não reflita no espelho e em algum lugar lhe atinja. Me mostre quais erros não são praticáveis por você. Existe? Quem de nós pode afirmar coisa tal?

Desconfio que nenhum de nós podemos dizer “ISSO, que fulano fez, eu não faria!”. Por que faria. Até o Norton Faria.


Mas há como piorar as coisas. Sempre conseguimos. Somos capazes de fazer um julgamento moral sobre fatos que nunca ocorreram. Ou seja, um julgamento de um crime que não aconteceu. E, acredito, que esse é o ponto que realmente eu queria chegar.

Que todos nós sofremos julgamento, sabemos todos. Mas, existe uma agressão maior que é o julgamento sobre algo não feito. Isso é doloroso para o julgado moralmente. É humanamente possível, um dia, esse julgado moralmente fazer o mesmo. Julgar algo que não aconteceu. E vice-versa, e num continuum. E ok. Mas saberei qual dor se sente quando isso ocorre. Farei sabido, consciente, esclarecido de que aquilo vai doer quando chegar ao meu julgado. Portanto, farei ciente que estou a cometer uma violência e que causarei dor.

Concluo, para não me alongar e tomar muito de seu tempo, não desejo que sintam dor nenhuma por conta de um ato meu. Haverá de acontecer. Sei. Mas enquanto eu estiver sob a consciência daquele que um dia foi julgado pelo que não fez, desejarei não oferecer dor nenhuma que senti. E me abstenho.

Me declaro suspeito.

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