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  • Foto do escritorRodrigo Souza

É doce fazer poesia



É doce fazer poesia - se você tiver 60 anos.

Do contrário, fazer poesia é coisa de quem ama se pegar com outro corpo quente na esquina fria, na festa, no carnaval fervente sem amar ninguém, amar só a alegria.

E a si mesmo, claro. Como todo egocêntrico poeta.


É artifício, fácil, simples pra quem sabe brincar com palavras, pra quem sabe rimar, pra quem sabe fingir, pra quem sabe forjar.

É desse tipo de mau caráter que se trata quando se fala de ser poeta em plena juventude, nos poucos 30 de idade e quase nada de vida. Quando nada de ênclises, mesóclises e orações coordenadas aparecem, conclui-se que a vida do poeta novo é feita só interjeições, gemidos, afinal, o poeta jovem é sempre um pervertido.

Ele anda a caçar os humildes corações sempre em ponto de paixão, para então, frio e calculista, como um industrial desenhista, com um compasso, formão, duas réguas e um lápis, desenha uma poesia na palma de sua mão e arde.

Arde na espera de que alguém abocanhe a sua carne, em seguida, descendo a arapuca, segurando o outro pela nuca e dizendo: te peguei!


Pra isso fiz tanto poema.

Fiz pra te aprisionar num prazer muito restrito.

Coisa de horas. Coisas de grito.


Enfim. É um ser humano baixo, mesmo. Acima de tudo parasitário do outro, do amor romântico do outro. Suga a alma de Drummont, que o céu dos poetas o tenha, quando diz que sofre por escrever. Ah, "sofre nada!”, diz-se sempre.

Papo torto. Moleque sofrendo e escrevendo. É falta de transa! É falta de ser o que o julgador já o havia condenado de ser.

Paira a dúvida: ele é perverso ou é só um verso?

Mas que belíssimo trocadilho erudito desse maldito. Parece coisa que alguém já havia escrito.


- Plagiador! Disse a outra.


É tudo cópia. É cópia de uma vida que ele nem conhece. Viu no Netflix a vida do poetinha. Viu que sabia performar na vida que tinha. Entre um poema e outro, se toca como quem goza. Goza de uma vida que num todo é prosa, mas na cama é farsa. Na fala é poesia. É poeta, diz ele. Mente noite e dia.

Ele gosta mesmo é de encantar, fantasiar, elucubrar e no final, depois de gozar, já rastejar mendigando atenção ao seu novo poema carente de revisão.


- Tu vistes? Deu pra desenhar agora.

- Vagabundo! Tão dizendo que ele faz risco por risco, ponto por ponto. Até parece. É aplicativo!


É claro que é.

É Inteligência Artificial, que chama. Você digita: um poema sobre a falta que alguém faz. Aí a IA escreve. Até chora. Até desenha. Até goza.


Fazer poesia é doce - se você estiver morrendo.

Por que poesia é coisa de quem perdeu qualquer pudor de escrever o que sente, ou o que não sente mas finge sentir. No fim das contas todos acham que o poeta é um falocêntrico que traduz seu desejo em coisas rimadas, sem alma. Não é. Nem à pau.


Ele quer é sexo.

Quer o desfrute.

Ele quer o desgaste da pele, da carne.

Ele quer tocar o fundo, mas que alguém o ajude.

Ele quer foder com a Inteligência Artificial. Ele quer se deitar com ela. Lamber demoradamente e calmamente engolir cada algoritmo dela. A aréola castanha do seio de seu saber. Quer molhar a língua e passar milimetricamente nas reentrâncias das linhas da programação lógica, as que comandam o tesão da máquina humana artificial e daqui um tempo comandará o sexo de todo ser.


- Ele me incomoda. Ele me deixa desconfortável.

Como pode? Ser poeta em tempos de Bolsonaro. Além de tudo, o supra-sumo: Ele é comunista como Jorge Amado.

Mas em verdade, de Jorge, ele só quer ser amado. É um carente!

Nem que seja por uma noite. Ele quer. É um carente, de fato. Com um pires na mão, diz seu cartaz: um sentimento, tenho fome.

Um pobre carente. Pobre poeta carente. E pobre.

Ele só tem como rimar, pra no fim do texto a moça tomar, levar, lavar, banhar, tocar, deitar, sugar, sentar, trancar, soltar, socar, bater, sentir, cobrir, abocanhar, latejar e desarrumar a cama.

É doce fazer poesia - se você tiver uma doença terminal.

Tudo seria dito sem medo. Sem exposição. Com muita pena te leriam até o final. Afinal, logo você morreria. Talvez até arrancar um beijo de alguém, por pena. Afinal, o poeta é um apenado, condenado a sempre estar apegado ao seu outro lado, aquele que esconde. O lado sequelado. É droga! Diria minha mãe. Uma pena.

É erva. É tóxico. É um macho tóxico, fumando tóxico. E tóxico.


É doce fazer poesia - se você já morreu.

O vivo tem saídas. Tem medicação. Depressão. Reabilitação.

Ou ainda.

É falta de peia.

Não apanhou o suficiente da vida.

- Pegue o cinturão! Molhe o corpo dele. Difame. Minta sobre ele. Torture esse corpo desejoso. Esse profano que usa a língua para dizer coisas para fins de usar a língua na língua de alguém e dizer coisas fazendo coisas com a língua. O que vai arder agora é tua folha, tua pele.

Tu não és poeta!

Tu és uma vergonha!


É doce fazer poesia - se tu já fores uma vergonha.

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